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Solidão X Solitude

“A linguagem criou a palavra solidão para expressar a dor de estar sozinho. E criou a palavra solitude para expressar a glória de estar sozinho” (Tillich).

Um dos assuntos mais recorrentes entre as pessoas que passam por um processo de imigração, se este temporário (intercâmbio) ou definitivo (quando decidimos mudar de país) é a solidão. A busca pela liberdade, pelo desbravamento de uma nova língua e país, traz a dura realidade da solidão e da solitude para o imigrante. Etimologicamente, em português, tanto solidão quanto solitude vem do latim solitudine. No nosso cotidiano, passamos a usar sempre a palavra solidão e vemos muito pouco o uso da palavra solitude.

É interessante fazermos esta comparação de diferenças, pois estar e ficar e ser sozinho ou sozinha não quer dizer necessariamente que será desagradável. A Solidão pode ser definida como a dor de estar sozinho. A avaliação do que é agradável e do que é desagradável é sempre um julgamento de valor. E os julgamentos de valor são sempre muito individuais e também relativos a um momento específico do tempo. Podemos dizer que vamos avaliar algo como agradável ou desagradável de acordo com o nosso desejo.

Por exemplo, imagine que você está caminhando pela praia e começa a chover. Se você não estivesse desejando a chuva, o momento seria avaliado como desagradável. Mas, se por um segundo você apenas sentir o que está acontecendo, e até desejar a chuva, a cena se transforma de desagradável para agradável.

Uma pessoa sozinha que deseja encontrar um relacionamento, possui um desejo – o desejo de ter a companhia de alguém. Deste modo, a solidão será facilmente ligada a uma ideia desagradável. Logo, a solidão é ruim. A Solitude pode ser definida como a glória de estar sozinho. Porém, o fato estar sozinho não precisa, de maneira necessária, ser associado a algo ruim. Podemos ficar sozinhos para colocar a cabeça no lugar, pôr os pensamentos em ordem, pensar na vida, apreciar uma paisagem, dançar sozinho no escuro…

De acordo com o dicionário Michaelis, a palavra solitude é uma palavra de uso poético, que pode remeter tanto à produção de algo novo como à apreciação e criação da beleza. Ou seja, a solitude permite o tempo, o espaço e o silêncio para fazer o útil e/ou o belo. Também permite não fazer nada. Bem como, permite desenvolver a espiritualidade, encontrar-se enquanto uma pessoa diferente dos demais e se aceitar como se é – independentemente da aprovação do outro. Uma característica presente na solitude e que não vemos uma referência frequente é a chance de ficar em silêncio. E, se estivermos sozinhos, não precisaremos de nos comunicar. Portanto, a solitude torna viável o silêncio. E o silêncio pode trazer calma, tranquilidade e paz.

Este texto é um pequeno elogio ao lado positivo de estar sozinho, ou seja, estar em solitude. Para uma sociedade extrovertida como a nossa, estar sozinho (e querer estar sozinho) é erroneamente associado com um problema. Como as pessoas que veem alguém ir no cinema desacompanhado e riem da solidão alheia. Porém, o que há de mais delicioso na solitude é a liberdade. Quando estamos em uma relação, é inevitável ceder um pouco ali e um pouco aqui. Às vezes não queremos ir numa pizzaria, preferiríamos ter ido ver um filme, porém, cedemos para satisfazer a vontade de um amigo, de um parente, do cônjuge, do colega de trabalho.

Mas porque não ir ou fazer o que queremos depois, sozinhos? Nada impede, e é esta a sensação de liberdade de poder ir e vir, e não precisar da aprovação de ninguém, da concordância de ninguém, ter espaço para ficar em silêncio e não ter quer ficar conversando sobre isto ou aquilo. A solitude é, portanto, uma oportunidade. Uma oportunidade de liberdade e de silêncio.

É importante não confundir a solitude com o isolamento total. Como dizia Balzac, a solitude é ótima desde que você tenha alguém para contar que a solitude é ótima. Quer dizer, é difícil imaginar uma vida sem ter pessoas ao nosso redor. Contudo, porque não ter momentos maravilhosos consigo mesmo?

 

 

Escrito por: Fernanda de Paoli e equipe CAPA Austrália

Fernanda é Coordenadora Geral do CAPA (Centro de Atendimento Psicológico na Austrália). Formada em Psicologia e Teologia no Brasil e mais de 10 anos de experiência trabalhando como terapeuta com jovens, família e crianças.